Revolução dos Cravos: comemorações do 25 de Abril voltam às ruas portuguesas, mas com precauções

O dia de hoje marca 47 anos desde que Portugal virou uma página importante em sua história – o fim da ditadura militar do Estado Novo, resultando na entrada da Democracia no país, bem como no início do fim da tenebrosa Guerra Colonial.

Como sempre, a cerimônia comemorativa desta data tão importante terá lugar na Assembleia da República, o parlamento português, e foi marcada para as 10h00 (06h00, no horário de Brasília). Na cerimônia estão previstas as presenças do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do primeiro-ministro, António Costa, e dos principais representantes de cada partido político no parlamento.

Por razões de saúde pública relacionadas com a pandemia da COVID-19, o número de participantes será reduzido, cabendo ao chefe de Estado fechar a cerimônia com um discurso. Tal como todos os outros participantes, que terão a palavra antes do presidente, Marcelo Rebelo de Sousa falará da importância deste dia para o povo português, das portas que foram abertas para o país, das novas oportunidades que foram dadas à sociedade, dos desafios que ainda permanecem por enfrentar e como, juntos, os cidadãos portugueses poderão os ultrapassar.

Cravos, poesia e música pelas ruas

No ano passado, as comemorações do 25 de Abril decorreram de uma maneira minimalista na Assembleia da República, sem direito a desfile pela Avenida da Liberdade, no centro de Lisboa, nem guarda de honra.

Porém, neste ano foi tomada a decisão de voltar a fazer desfile, estando os organizadores do mesmo em constante contato com a Direção-Geral da Saúde, a Polícia de Segurança Pública e a Câmara de Lisboa de modo a determinar as condições a serem respeitadas para que o aguardado evento se realize, informou Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril, ao jornal Público.

Sessão no Parlamento português em homenagem à Revolução dos Cravos, com número restritos de participantes por causa da pandemia

© FOTO / SANDRA RIBEIRO / ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA PORTUGUESASessão no Parlamento português em homenagem à Revolução dos Cravos, com número restritos de participantes por causa da pandemia

As entidades que integram o desfile, previsto para a tarde de hoje, devem preencher um registro das pessoas que vão participar e determinar o lugar que ocuparão na marcha, de modo a facilitar eventuais contatos com as autoridades sanitárias. Evidentemente, o uso da máscara será obrigatório.

Para os restantes cidadãos que não possam participar do desfile é incentivada sua presença nas janelas de suas moradias e outros edifícios, erguendo cravos vermelhos e entoando, junto com o resto da multidão, as célebres canções “Grândola Vila Morena”, da autoria do cantor Zeca Afonso, e “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, e acompanhando o clamar de poesia revolucionária, bem como de outras cantigas alusivas a esta data e à luta contra o governo de António de Oliveira Salazar.

O que foi exatamente o 25 de Abril?

Desde 1961 que a Guerra Colonial, também conhecida como Guerra do Ultramar, persistia entre Portugal e as frentes de libertação das ex-colônias portuguesas na África, nomeadamente Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Com o passar dos anos, esta provou ser insustentável para o país, não só em termos econômicos, mas também humanos, com o envio maioritariamente forçado de jovens portugueses para o campo de batalha.

Hoje, é estimado que mais de oito mil soldados portugueses tenham morrido na Guerra Colonial, sendo que mais dos 15 mil que regressaram com vida apresentaram – e alguns ainda apresentam – graves problemas físicos e psicológicos.

Dentro das Forças Armadas de Portugal existiam vários setores que se opunham à guerra na África, formando o Movimento das Forças Armadas (MFA) com o objetivo de derrubar o governo de Marcelo Caetano – primeiro-ministro de Portugal entre 1968 e 1974, e de certo modo sucessor de Salazar, após sua morte em 1970 – através de um golpe militar.

Salgueiro Maia no Largo do Carmo

© FOTO / ACERVO DA ASSOCIAÇÃO 25 DE ABRILSalgueiro Maia no Largo do Carmo

O MFA, liderado pelos chamados Capitães de Abril Salgueiro Maia, Vítor Alves, Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Lourenço, iniciou o golpe militar ainda na noite de 24 de Abril de 1974, sendo que na madrugada do dia seguinte, com a emissão pela rádio da canção “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso – que teria sido banido da rádio portuguesa durante o período salazarista – o MFA transmitiu também sinais às suas forças para se dirigirem para pontos estratégicos do país.

Percebendo o que estava acontecendo, a população juntou-se aos militares, colocando cravos vermelhos nos canos das armas deles. Por fim, Marcelo Caetano abdicou do poder e fugiu para o Brasil, onde acabou por morrer seis anos mais tarde, e a democracia poderia finalmente nascer na República Portuguesa.

O que mudou após a Revolução dos Cravos?

Até hoje, Portugal sente a influência do fim do Estado Novo. De uma maneira resumida, estas foram as principais mudanças ocorridas: as colônias foram liberadas, se bem que muitos especialistas criticam o modo apressado como Portugal se retirou das mesmas sem transições graduais da autoridade portuguesa para os novos governos africanos independentes; o direito ao voto universal em 25 de Abril do ano seguinte, no qual as mulheres passaram a poder votar sem qualquer tipo de restrições; foi dado ênfase à alfabetização no país, uma vez que grande parte da população portuguesa, especialmente nas zonas do interior, mal sabia ler e escrever, entre outros marcos progressivos.

Por causa da pandemia, portugueses celebram Revolução dos Cravos cantando nas janelas de casa

© SPUTNIK / CAROLINE RIBEIROPor causa da pandemia, portugueses celebram Revolução dos Cravos cantando nas janelas de casa

Atualmente, a República Portuguesa ainda tem muitos desafios em vários setores sociais, nomeadamente em questões religiosas (sendo a Igreja Católica predominante), de racismo, de direitos da mulher e da luta pelos direitos da comunidade LGBTQ+. Ainda existem, de igual modo, forças políticas saudosistas dos tempos de António de Oliveira Salazar, contudo, é esperado que um país que se tornou livre há menos de 50 anos não queira de novo regredir em todo seu caminho e toda sua luta por um Portugal livre, seguro e democrático.

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