Audiard e Desplechin reafirmam vitalidade do cinema francês

Durante esta 74.ª edição do Festival de Cannes (o palmarés será conhecido este sábado, 17 de julho, ao fim da tarde), tem sido amplamente reconhecido o misto de quantidade e vitalidade da mais recente produção francesa. E, desde logo, por uma razão muito forte: a França terá sido um dos países europeus cuja indústria cinematográfica foi capaz de montar uma estratégia eficaz para lidar com as limitações impostas pela pandemia.

De tal modo que é mais ou menos consensual que alguns títulos programados extracompetição poderiam (porventura deveriam) ter integrado a lista dos concorrentes à Palma de Ouro. Assim, por exemplo, numa nova secção de antestreias (“Cannes Première”), pudemos descobrir o mais recente trabalho de Arnaud Desplechin, a meu ver um momento alto da sua já longa e brilhante filmografia – chama-se Tromperie e adapta o romance Deception, de Philip Roth (edição portuguesa: Engano, Dom Quixote).

Potenciando a sofisticada estrutura de diálogos de Roth, Desplechin conserva e, de alguma maneira, intensifica a dimensão autobiográfica dos acontecimentos, encenando os encontros de um escritor americano exilado em Londres e a sua amante inglesa. O fluxo das palavras enreda-se na espantosa dinâmica visual dos rostos, dos corpos e da música, e o menos que se pode dizer é que Tromperie tem nos atores principais – Denis Podalydes e Léa Seydoux – duas das mais espantosas interpretações descobertas neste festival.

De atores será também preciso falar a propósito do magnífico Les Olympiades, de outro francês, Jacques Audiard, neste caso na secção competitiva. Lucie Zhang, Makita Samba, Jehnny Beth e Noémie Merlant (a pintora de Retrato de Uma Rapariga em Chamas, 2019) são personagens que se cruzam em cenários parisienses, mais exatamente no bairro cuja designação corrente serve de título ao filme (o subtítulo identifica a respetiva zona urbana: Paris 13e.).

Fotografado por Paul Guilhaume num belíssimo preto e branco, o filme de Audiard explora uma clássica estrutura coral, revelando as quatro personagens centrais através de uma rede de encontros e desencontros pontuada por duas componentes fundamentais: a singularidade dos impulsos amorosos e a fragilidade das condições de trabalho. Sem que isso, entenda-se, transforme Les Olympiades numa tese sociológica, muito menos em mais um sermão sobre o masculino/feminino.

Audiard é um cineasta que se interessa, de facto, pela complexidade afetiva das suas personagens (sempre enredada nos caminhos insólitos da sexualidade), por isso mesmo recusando transformá-las em “símbolos” do que quer que seja. Talvez se possa dizer que qualquer um dos seres humanos que aqui descobrimos se define a partir de formas muito peculiares, mesmo intrigantes, de solidão. No limite, podemos dizer que a abertura de cada um aos outros passa sempre pelo conhecimento – e, num certo sentido, pela exploração criativa – da sua própria solidão.

Audiard continua a ser um genuíno narrador romanesco, mantendo sempre o romantismo a uma distância pedagógica. O seu trabalho já foi várias vezes distinguido em Cannes, incluindo com uma Palma de Ouro, em 2015, para Dheepan (sobre um refugiado do Sri Lanka em França). A inteligente ressonância universal de Les Olympiades poderá muito bem permitir-lhe repetir a proeza.

Fonte: Diário de Notícias

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