Portugal vai conscientizar professores sobre diversidade da língua e tolerância ao “brasileiro”

Foto: Gian Amato/Portugal Giro/O Globo

Em meios aos recentes relatos de discriminação e da preocupação dos pais portugueses com crianças que falam “brasileiro” nas escolas, o Ministério da Educação diz que vai aumentar a conscientização de professores do ensino público de Portugal para entenderem a diversidade da língua portuguesa.

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A informação foi transmitida ao Portugal Giro pelo secretário de Estado Adjunto e da Educação, João Costa. 

— Na prática, o primeiro passo tem sido dar formação sobre a diversidade e tolerância linguística. Este tem sido um foco de atuação do Ministério da Educação, que já tem investido muito na formação dos professores, mas talvez tenhamos que investir mais neste tipo de ação. O foco tem que ser este — disse Costa.

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Questionado pela coluna se o envelhecimento do corpo docente diante do crescimento dos estudantes brasileiros nas escolas e universidades foi uma combinação para a qual Portugal não estava preparado, Costa discordou. Mas reconheceu que é o primeiro grande embate linguístico deste século nas salas de aula.

— A diversidade nas escolas já dura vários anos. Sobretudo após a descolonização, recebemos muitos imigrantes de países africanos de língua portuguesa. Depois, de uns dez, quinze anos para cá, houve grande imigração do Brasil. E acho que foi o primeiro confronto de alguns professores com aquilo dito dentro da mesma língua. Há professores que entendem que temos uma língua que é pluricêntrica, com diferentes normas. E há outros com os quais temos que trabalhar — explicou Costa.

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Estes professores mais resistentes têm a tendência de discriminar, humilhar e até reprovar alunos brasileiros. Os relatos são abundantes e se arrastam há vários anos. Mas não chegam aos corredores do Ministério da Educação, como afirmou Costa. Pelo menos não proporcionalmente ao número de estudantes brasileiros, a maior comunidade acadêmica estrangeira em Portugal, com cerca de 20 mil (40%) alunos dentro de um total de 50 mil no ensino superior.

— Estes relatos não têm chegado ao Ministério da Educação. Temos consciência que há muito trabalho a fazer. É uma área na qual temos que investir mais na capacitação dos professores. Estes casos que têm ganhando voz, em função de algum comportamento de discriminação da língua, felizmente não têm expressão muito grande em Portugal. Temos que ir atrás do que há, mas não são expressivas diante do número de alunos brasileiros que temos. E há o mesmo a acontecer no Brasil com alunos portugueses. Isso só mostra que estamos fazendo formação e também aprendendo. Eu, que sou linguista, não sei muito bem qual o caminho — disse o secretário.

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Enquanto os pais portugueses têm receio, as famílias brasileiras pedem tolerância com o aluno estrangeiro. Defensor da pluralidade, que deixa transparecer no discurso que gosta de música brasileira, Costa admite que a questão precisa ser resolvida, mas não é sofisticadamente simples com o samba de uma nota só:

— Em um exame, se tiver um eu te vi ao invés eu vi-te, é considerado desvio à norma. Mas, para a norma brasileira, está certo. Agora, quando alguém fala português do Brasil, entendemos isso, mas numa prova escrita, o que é que eu faço? É uma área difícil. Temos que continuar a trabalhar, estudar e entender. Sem exageros.

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Na prática, não há bibliografia didática oficial de formação sobre o tema em Portugal, a não ser material publicado no Portal do Professor de Português, dentro do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), e revistas especializadas, alerta Costa.

A conscientização dos professores, de acordo com o secretário, parte de um misto de experiências vividas por profissionais do setor, docentes e linguistas.

— Alunas minhas fizeram estágio em uma escola onde havia muito preconceito com sotaque brasileiro. Encontramos poemas interpretados por Maria Bethânia e fizemos um trabalho para tomarem consciência de como a pronúncia em “brasileiro” pode tornar um verso mais bonito. É preciso entender o valor e a beleza da diversidade. Mas é uma estrada longa a percorrer e nela reunimos experiências de quem passa por estas situações, de linguistas, para ver qual poderia ser a melhor forma de intervenção — detalhou Costa.

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O despertar para a riqueza abrange desde aspectos óbvios, segundo ele, como diferença na pronúncia e significado de algumas palavras, como autocarro/ônibus.

— Isso são os aspectos mais óbvios. Mas, depois, há muitas sutilezas de sintaxe, da forma como as expressões são interpretadas. E nós temos aqui, e nem digo como governante, mas como linguista, que sermos capazes de divulgar esta informação de diversidade — declarou.

Mas a conscientização de professores, para o secretário, é uma estrada de mão dupla e deverá abranger os docentes brasileiros diante de alunos portugueses no Brasil. E envolve, ainda, o despertar dos alunos brasileiros em Portugal para que transitem nos dois universos:

— Isso é capacitar os alunos a dominarem diferentes ajustes. A forma como eu falo, em português europeu e no contexto formal, é diferente da forma que eu falo com amigos. Eu falo de diferentes formas em diferentes contextos. E quanto mais dominam o trânsito entre contextos, mais capacidades terão como cidadãos.

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Por fim, sobre a possibilidade do YouTube ser um virtual triturador da norma europeia, o secretário diz que é um disparate. E que não há como lutar contra a riqueza real do idioma.

—  Sou português, nasci em Portugal e sei que, numa língua que é falada em diferentes países, tenho que ter tolerância para as diferentes normas. Antes, o “brasileiro” entrava em Portugal pelas novelas. Hoje, já temos locutores brasileiros. Tenho 49 anos e quando eu era menino não se dizia tchau em Portugal, que é o ciao italiano. Mas não se dizia e entrou no país com o “brasileiro”. Assim como a palavra fofoca. Este é o normal da língua — finalizou.

 Mesmo com a dissolução do Parlamento em dezembro, o governo manterá funcões. As novas eleições estão programadas para 30 de janeiro. Se o Partido Socialista (PS) permanecer no poder, a tendência é que o Ministério da Educação acelere as ações. A sigla do premier António Costa lidera as pesquisas.

Fonte: O Globo

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